PORQUE OS MISSIONÁRIOS PERMANECEM NO CAMPO?

O que faz com que um missionário seja flexível, espiritualmente vibrante e forte para sobreviver as crises? Quais os fatores que ajudam o missionário a crescer num ministério frutífero constantemente ajustando-se a novas circunstâncias e necessidades? Que tipo de estrutura de envio provê o missionário com um apoio efetivo e suficiente?


Estas são algumas das perguntas que serviram de base para uma pesquisa feita pela Comissão de Missões da Aliança Evangélica Mundial da qual as missões brasileiras fizeram parte. Com o nome de REMAP II, a retenção dos missionários no campo foi a principal preocupação da investigação. Ao contrário da pesquisa realizada em 1995, que enfocou a saída prematura de missionários (apresentada no livro Valioso demais para que se perca) que buscou as razões para o abandono do campo, o REMAP II tentou encontrar os fatores positivos que determinam a permanência dos obreiros no campo missionário. Na primeira pesquisa chegou-se a conclusão que perdíamos (com base nos anos 1992 a 1994) cerca de 8% dos missionários anualmente por razões que poderiam ter sido evitadas como, por exemplo, falta de preparo transcultural, perda do apoio financeiro e incerteza sobre o chamado missionário. Por isso era interessante dar continuidade ao estudo e verificar se houve mudanças no comportamento das missões e no corpo de missionários após 10 anos e que aspectos são importantes para a manutenção dos obreiros por mais tempo em sua atividade missionária.


As perguntas da pesquisa foram divididas em áreas como: a prioridade ministerial da missão, o processo de seleção do candidato, o nível educacional do missionário, o treinamento pré-campo exigido pela missão, o cuidado pastoral a favor do missionário, a forma de atuação da missão quanto a comunicação, liderança, orientação e treinamento no campo, expectativas de resultados, apoio a família do obreiro, finanças e funcionamento da base no país de origem. Executivos de missões de 22 países fizeram sua avaliação quanto a todos estes itens num total de 98 questões, indicando a importância que sua organização dá a cada aspecto que envolve o missionário e a participação da missão. Estas avaliações foram comparadas com a taxa de retenção fornecida por cada organização buscando uma relação entre a porcentagem de permanência de missionários no campo e as prioridades assinaladas. Na análise dos dados, as missões foram divididas em oriundas de países tradicionais de envio (Old Sending Countries) e de países de envio mais recente (New Sending Countries) e em missões com alta, média e baixa taxa de retenção.


Em nível mundial, chegou-se à conclusão que os fatores que caracterizam as missões com alta taxa de retenção de missionários no campo, tanto dos países tradicionais de envio como dos países de envio mais recente, conforme Detlef Blocher que fez a análise, são:


Missões que exigem um bom treinamento dos candidatos e fazem uma criteriosa seleção de seus missionários;


Missões que têm uma liderança com boa interação com seus missionários e uma administração enxuta e estrutura flexível, com atitude de serviço.


Missões que oferecem aos seus missionários oportunidades de treinamento contínuo e desenvolvimento de novas habilidades;


Missões que encorajam seus missionários a trabalharem de forma ativa para um aperfeiçoamento de seus ministérios e do funcionamento de sua agência enviadora;


Missões que não impõem “de cima para baixo” suas decisões e mudanças;


Missões que utilizam o conhecimento e a experiência dos missionários;


Missões que entendem e valorizam sinergia e trabalho em cooperação com outras missões para maximizar seus recursos, não olhando para o seu próprio sucesso mas para o avanço global do Reino de Deus.



No nosso caso brasileiro, certamente as conclusões serão parecidas, mas com nossas próprias peculiaridades. A análise ainda está sendo realizada e será publicada dentro de pouco tempo. Pode-se adiantar que temos uma taxa de retenção que é menor do que a média tanto nos países tradicionais de envio como nos de envio mais recente. Após dez anos, apenas 52 % de nossos missionários permanecem no campo, sendo que a média dos países de envio recente chega a quase 70%! Fatores como bom preparo pré-campo, seleção criteriosa dos candidatos, melhora no apoio logístico e financeiro e investimento no cuidado pastoral do missionário e de sua família, certamente são determinantes para uma maior permanência de nossos missionários em suas atividades transculturais. Mas esta ainda não é uma conclusão final. 


O desafio continua. Temos condições de enviar mais missionários e de prepará-los melhor. Nossas estruturas de envio certamente podem ser melhoradas assim como o cuidado integral dos obreiros no campo. A pesquisa nos ajudará a rever alguns conceitos e, conforme o nosso estilo, a buscar soluções criativas para as deficiências que ainda temos. O objetivo do movimento missionário brasileiro é a excelência e não vamos deixar por menos.


Pr Bertil Ekström